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A relação entre desespero, oportunidade e empreendedorismo em um mundo que não muda

Países ricos são ricos por serem celeiros de inovação ou são celeiros de inovação por serem ricos? 

Quando se estuda empreendedorismo em uma escala global, é difícil não se perguntar o motivo de países como Estados Unidos, Suécia, Japão e Alemanha serem os lares de tantas das mais incríveis corporações do mundo enquanto os que ficam na América do Sul, na África ou em boa parte da Ásia continental terem papéis tão coadjuvantes na economia mundial. 

Essa pergunta ganha volumes ainda mais altos quando se observa que, em muitos casos, essas corporações gigantescas foram fundadas, lá em suas origens, justamente por empreendedores que deixaram os seus países em momentos de total crise e desesperança. 

E é aí que entra parte da resposta: poucas coisas, afinal, motivam mais a humanidade do que a desesperança.

O começo do século XX foi especialmente complicado. A primeira metade do século, por exemplo, teve duas guerras mundiais que devastaram todo o continente europeu e uma crise na bolsa de valores novaiorquina que quebrou, da noite para o dia, tanto fortunas quanto crenças do velho capitalismo por trás delas. Fome e desesperança fizeram hordas de imigrantes deixarem seus lares e partirem para países com mais promessa de felicidade, por mais vã que fosse. 

Foi o caso do escocês Andrew Carnegie, do húngaro Joseph Pulitzer e do russo David Sarnoff, que entraram nos Estados Unidos pela porta dos fundos e, em pouco tempo, montaram impérios nas áreas de aço, jornal e rádio, respectivamente. 

A seu favor eles tinham duas coisas: a sempre super motivadora falta do que perder, uma vez que haviam chegado pobres e sem perspectiva alguma de futuro, e um cenário de infraestrutura em construção no país que os recebeu. No caso dos seus negócios, ferrovias sendo estabelecidas, leis e regulamentações protegendo “interesses nacionais” de especulações externas e demandas bélicas extraordinárias foram absolutamente fundamentais. 

Avance meio século e você verá cenários parecidos. O final dos anos 90 testemunhou guerras em praticamente todos os continentes, mais levas de imigrantes saindo do Oriente Médio, dos Bálcãs e da África rumo aos países mais desenvolvidos e a reestruturação de toda a ordem mundial depois da falência do modelo comunista. Some isso ao estabelecimento da interconectividade digital, quebrando fronteiras e transformando o mundo em uma pequena aldeia, e chega-se a um momento de oportunidade extremamente parecido o do século passado. 

A imigração como ponte entre os dois mundos

Voltemos aos Estados Unidos: de acordo com a Reuters, metade de todas as start-ups americanas que conseguiram investimentos de venture capital foram lançadas por imigrantes – incluindo o Google (co-fundada pelo russo Sergey Brin), a Intel (pelo húngaro Andrew Grove) e o Instagram (pelo brasileiro Mike Krieger). 

Claro: o mérito do sucesso sempre deve recair sobre os empreendedores que foram capazes de costurar teias de negócio perfeitas, explorando oportunidades à exaustão. Mas a pergunta que fica é: por que, exatamente, os seus próprios países de origem não foram capazes de aproveitar melhor as suas mentes e gerar riquezas localmente, dinamizando economias que por certo precisavam de gas?

Porque esses dois ingredientes – o desespero e a oportunidade – muitas vezes vivem em mundos absolutamente diferentes. Não fosse assim, apenas para ficar no exemplo mais óbvio, países da África seriam celeiros de algumas das mais criativas empresas do planeta: desespero e desesperança, convenhamos, é algo que infelizmente costuma sobrar por lá. 

É uma dinâmica simples: na medida em que crises mais severas ou guerras assolam uma região, levas e mais levas de pessoas erguem as suas cabeças em busca de uma vida melhor em outro lugar, abandonando o passado e recomeçando com a gana dos que nada mais tem a perder.

Onde? Em regiões que conseguiram se vender, globalmente, como terras de oportunidades, com leis claras, economias consistentes e governos cujas funções são muito mais regulatórias do que impositivas. 

E por que isso é importante para nós, brasileiros? 

Em tempos de crise econômica, com corrupção em alta e uma visão no mínimo pessimista quanto ao nosso futuro, as oportunidades de se empreender vão se tornando mais escassas na medida em que o desemprego e a perda de relevância econômica fazem crescer a vontade de empreender. 

Há, portanto, uma desconcexão entre o instinto empreendedor e o ambiente de se empreender. E, como o instinto é sempre mais forte, este acaba buscando alternativas de sobrevivência além das fronteiras locais. 

O resultado disso:  um volume cada vez maior de brasileiros que desistem do seu país por falta de infraestrutura de oportunidades, emigrando para os Estados Unidos ou Europa e implementando por lá ideias que poderiam facilmente mudar a cara da nossa economia. 

Uma dinâmica de desenvolvimento menos dinâmica do que quereríamos

É um cenário triste e pessimista para o futuro de países em desenvolvimento, quase todos no mesmo estágio de luta contra as suas próprias culturas intervencionistas e corruptas que colocam a busca do lucro como grande vilã, como responsável externa por todos os males impostos às suas populações pela própria ineficiência do governo.

É um cenário que deixa clara uma espécie de ordem mundial mais estabelecida e imutável do que queremos: há países (como o Brasil) especialistas em impor o caos às suas populações, forçando parte delas a emigrar em busca de oxigênio; e há países competentíssimos em receber e transformar essa nata intelectual externa em verdadeiras fábricas de inovações multibilionárias. 

E sabe o pior? Boa parte dessas inovações são revendidas justamente para os mesmos países que não foram capazes de manter as mentes por trás delas em seus territórios. 

Em um cenário assim, historicamente imutável, é mesmo realista considerar que, um dia, países em desenvolvimento realmente vão sair do gerúndio e tornar-se desenvolvidos? 

Por Ricardo Almeida
Publicado em 27/05/2015 no Blog Gene do Caos

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