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As escolhas ocultas do Windows 10

Publicado em 31/07/2015

Faço parte de um número divulgado poucas horas atrás: somos uma crescente de mais de 14 milhões de usuários que atualizaram seu sistema operacional para o Windows 10 logo no primeiro dia de disponibilidade. Apesar da gratuidade, me pergunto: a que preço? 

Como empreendedores digitais, nossa especialização exige que exploremos as novidades que o mercado propõe. Essas novidades podem se tornar oportunidades de negócio para nossos clientes. Estes, por sua vez, entregam produtos e serviços que influenciam comportamentos e moldam a experiência dos artefatos que consumimos no dia a dia. Sob um prisma antológico do Design, os expoentes do Xerox Star e Macintosh surgem como marcas permanentes na construção das metáforas de interação. A escolha por termos pastas, arquivos e documentos nos nossos computadores é uma atitude mimética diante do olhar do mundo 'real', que tentava se misturar ao recém-chegado 'virtual'.

Observo muita desvalorização em relação aos resultados da Microsoft no que tange experiência do usuário. Posso afirmar, porém, que os colegas que desenham soluções como Office e Windows tem um trabalho de muita profundidade. Pare e pense: a amostragem é de cerca de um bilhão de usuários. Tive a oportunidade de conhecer parte da equipe durante nosso congresso anual do IxDA, no inverno passado, em Amsterdã. Soluções como as ribbons do Office e os live tiles do Windows Phone são originais, simples, e resolvem problemas de usabilidade ainda não notados.

Antes que pergunte, não sou fanboy, Apple boy, ou qualquer coisa do tipo. Já tive computadores do Windows 3.11 ao Windows 10; do Linux Kurumim ao Ubuntu; do Mac OS X Leopard ao Mac OS X Mountain Lion. Celulares, já perdi as contas: muitos Nokias, alguns Lumias, alguns iPhones e por enquanto nenhum Android. Não se preocupe, todos foram devidamente reciclados ou repassados no fim dos seus ciclos de vida. Essa riqueza de alternativas em modelos de interação contribui para meu repertório como Designer de experiência e influencia a maneira com que trabalhamos no Núcleo de UX da A2C. 

Mas, sem mais rodeios, quero chegar a provocação do primeiro parágrafo: o que está por trás da oferta gratuita da Microsoft de anteontem?

A resposta é simples e já está presente na bibliografia do Design de interação faz algum tempo. Websites e aplicativos tem um limiar diferente: não são produtos, não são serviços. São produtos-serviços. AirBnb e Uber estão na mídia por conta dessa característica, além, claro, da sua maestria em elisão fiscal e previdenciária. O truque não é ver Windows 10 como um sistema operacional, e sim uma plataforma amplificada de mídia. Busque por screenshots e observe a presença do Bing, do conteúdo do MSN e os anúncios que fluem em aplicativos nativos. Tem até a Cortana para facilitar a conversão. Deduziu a resposta? A atualização é gratuita porque você é o lucro. 

Isso, na realidade, não é o problema. Google faz o mesmo, tira fotografias para o Street View sem absolutamente nenhuma permissão, mas nós como usuários utilizamos seus serviços. O deslize da Microsoft, na minha visão, foi não dar um caminho claro e conciso para que os usuários façam suas próprias escolhas. A partir do Windows 10 tornou-se mais difícil (e quase impossível de deduzir) o procedimento para escolher um navegador de internet padrão. Escolhi atualizar meu sistema operacional, mas perdi minhas outras escolhas.

Compactuo com Chris Beard, CEO da Mozilla, que hoje pela manhã solicitou esclarecimentos de Satya Nadella sobre a quebra nas escolhas dos usuários. E essa é uma bandeira que temos de manter.

Por João Menezes, Líder de Design de Experiência da A2C  

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